domingo, 11 de outubro de 2009

O SOL SE PÔS FURADO...

"Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos os corações, onde corriam todos os vinhos.

Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. — E encontrei-a amarga. — E insultei-a.

Levantei-me em armas contra a justiça.

Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!

Consegui extirpar de meu espírito toda esperança humana. Pulei sobre toda alegria, para estrangulá-la, com o salto silencioso da fera.

Chamei os carrascos para, ao morrer, morder a coronha de seus fuzis. Chamei os flagelos para afogar-me com a areia, o sangue. A desgraça foi meu deus. Chafurdei na lama. Sequei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.

E a primavera me trouxe o pavoroso riso do idiota.

Recentemente, quando me encontrava nas últimas, pensei procurar a chave do antigo festim, onde talvez eu recobraria o apetite".

Rimbaud, Arthur: Uma Temporada no Inferno


Georges Rouault: O palhaço ferido (c. 1933); tela, 2 x 1,20 m. Paris, Coleção particular.


"Pois bem, que assim seja! Que minha guerra contra o homem se eternize, já que cada um de nós reconhece no outro sua própria degradação... já que somos ambos inimigos mortais. Quer deva eu conseguir uma vitória desastrosa ou sucumbir, o combate será belo; eu, sozinho contra a humanidade".

Lautréamont: Os cantos de

Maldoror

Um comentário:

  1. Muito bacana! Parabéns!!
    Como sempre demostrando oq a de melhor em vc!!
    Beijo
    Laís

    ResponderExcluir

"Para cantar é preciso primeiro abrir a boca. É Preciso ter um par de pulmões e um pouco de conhecimento de música. Não é necessário ter harmônica ou violão. O essencial é querer cantar. Isto é, portanto, uma canção. Eu estou cantando".

Trecho: Trópico de Câncer de Henry Miller